Encontro com Rubem

I.

Eu precisei descer do ônibus

para dar conta da pulsação:

era a cidade me atravessando

as memórias.

A manhã

tumultuada usurpada

por imprevistos que arrombam

a porta a constatação

dos vermes a correria

pra amansar o atraso

o desabafo a falta de sossego

tudo isso emergiu gloriosamente

como se eu precisasse engolir o caos

para desdobrar a estética

da produção.

 

II.

Quando voltei

à vida às 16h20

da tarde em frente a calçada

da Escola de Música respirei

o trânsito como oxigênio

porque há muito teci

morada entre

as avenidas que interligam

o centro conheço muito

dos nomes das pixações

os atalhos nos corredores de lojas

os bons cafés livrarias bebedouros

públicos e linhas de ônibus.

 

III.

Com o sol na decoração

a Lapa estava sublime

sua majestade

eleva-se à noite

mas é costurada

ao longo de um dia

inteiro enquanto as figuras

que habitam sua biosfera

botam bloco miséria

e vendaval na calçada

chegando na Gomes Freire

alguns cenários

são diferentes até normal

a cidade também é gente

não pára de transformar

uma obra ali um buraco acolá

e as reformas criam um corpo

têxtura que nos invade e vomita até virar

a mesma massa sem começo nem fim

 

IV.

o ônibus que traz

pra Santa Teresa é povoado de gente

feroz na força de subir e descer

quantas vezes for preciso

pra não faltar nada em casa

sou uma delas

orgulhosa tanto quanto a senhora negra

que carrega quatro sacolas

e se acanha com a gentileza

quando desci um ponto

antes de casa foi

só pra conferir a moldura embalada

de paisagem também conhecida

como cidade de Sebastião

teia nossa que estás na baía

que nos faz olhar e quase esquecer

 

a arte de andar nas ruas do Rio de Janeiro

é um modo de experimentar o mundo

só quem sente o atravessamento

vê a ficção do Rubem Fonseca

parada no boteco da esquina.

Anúncios

Domingo não irei

“Não no nosso domingo,
não no meu domingo,
não no domingo…” (Álvaro de Campos)

Nesse dia
tão cinza
quanto objeto
esticarei as pontas
do elástico
para ver o tempo
se forjar
espantalho
– botando as aves pra correr –

Não tem sol
nem churrasco
mas o vizinho
ouve Bezerra da Silva
pra reabilitar as velhas
memórias de quando
éramos despreocupados
em assistir ao castelo
desmoronar

As curvas se ergueram
mesmo a fumaça
desenhista de parede
já hesita assumir
certos riscos de traços
tragos das cores

É domingo
para todos àqueles
que lançaram âncora
madrugada adentro

Amanhecemos sutis
sem conhecer os destinos
para onde nossas asas
teimam voltar.